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Desigualdade de gênero

Atualizado: 23 de abr.

O texto a seguir foi construído a partir da colaboração de Mariana Mazzini Marcondes (Professora do DAPGS/PPGP/CCSA/UFRN). Para ver ou ouvir clique no vídeo abaixo!

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Para entender a desigualdade de gênero é importante, primeiramente, entender gênero. Joan Scott propõe que gênero seja compreendido como uma categoria analítica. Mas, é importante considerar que não se trata de uma categoria criada em um laboratório, ou uma biblioteca. Gênero surge das práticas feministas, o que significa que não só surge, mas também contribui para essas práticas feministas e se transforma a partir delas.

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Uma forma de situar a discussão é recuperar a frase de Simone de Beauvoir (O segundo sexo): “não se nasce mulher, torna-se mulher”. O tornar-se mulher significa que o nascimento, o ato biológico e natural, diz pouco sobre o que significa esta construção social e histórica, que surge a partir da socialização e da aprendizagem, que ocorre em uma organização social.

A partir de Joan Scott, podemos entender gênero como uma forma primária de constituição de relações sociais de poder e de dominação, que se faz a partir das diferenças percebidas entre os sexos. Essa definição comporta alguns desdobramentos.

Primeiro, há a relação entre sexo e gênero. Gênero é a construção social e histórica que se faz a partir das diferenças percebidas entre o sexo, que nos remete ao biológico. O fato de uma mulher nascer como uma vagina e o homem nascer com um pênis diz muito pouco sobre ser engenheiro, ser enfermeira, poder chorar, saber cuidar de criança. Essas questões são construções sociais e históricas. Além disso, essas construções envolvem uma separação/diferenciação (masculinidade/feminilidade), mas também abarca a hierarquização dessas diferenças. Isso porque gênero é uma relação social de poder e de dominação, o que significa que alguém se privilegia com ela e alguém se prejudica.

Nesses termos, a relação de gênero é primária, porque ela é uma relação de poder e de dominação constitutiva da realidade social. O elemento relacional é importante também porque não existe o masculino sem o feminino. Quando se diz que homem não chora, subentende-se que mulher chora. Assim, é fundamental compreender gênero em termos relacionais.

Outro desdobramento é o que diz respeito à normatividade e à simbologia que envolve o gênero, ou seja, há um destino para o qual se deve ir. É esperado que os homens sejam violentos ou racionais, e que as mulheres sejam cuidadosas, criem filhos. Essas normas sociais se fazem por meio das simbologias. O homem forte e rico, a mulher “Maria” e mãezinha. Esses são símbolos que são permeados por ideologias, que contribuem para estabelecer e legitimar relações de dominação. Por fim, o último aspecto é o da identidade subjetiva. O gênero constrói as subjetividades e as emoções, em seus lugares mais íntimos.

É importante considerar que, se gênero se constrói e se transforma a partir das práticas dos movimentos feministas, há algumas reconstruções contemporâneas do conceito que apresentamos. A primeira é a que se coloca a partir de Judith Butler e da Teoria Queer, que, entre outras contribuições, indica que não existe uma relação automática entre sexo, gênero e desejo. Ou seja, não se nasce mulher, torna-se mulher e deseja-se um homem. Há performances diversas de gênero e reconhecer isso traz potência para refletir sobre gênero para além da heterossexualidade, além de desafiar ainda mais a ideia do sexo biológico. A segundo é a que se faz a partir da interseccionalidade, uma contribuição, sobretudo, das feministas negras. Por meio dela, é possível pensar que gênero é uma relação de poder que se imbrica com outras relações, como raça e classe, para estruturar a realidade social.

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Quer saber mais? Leia:

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016

DAVIS, Angela. Mulher, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016. Dsponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4248256/mod_resource/content/0/Angela%20Davis_Mulheres%2C%20raca%20e%20classe.pdf.

HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, v. 5, Campinas-SP, Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu/Unicamp, p.7-41, 1995. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/cpa/n22/n22a09.pdf.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Recife: SOS Corpo, 1995. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/185058/mod_resource/content/2/G%C3%AAnero-Joan%20Scott.pdf.

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