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Cuidado

Atualizado: 23 de abr. de 2023

O texto a seguir foi construído a partir da colaboração de Regina Stela (professora da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC)).Para ver ou ouvir clique no vídeo abaixo!

O tema do cuidado ganhou muito destaque a partir dos anos 2000, devido às pesquisas sobre envelhecimento populacional, que apontam para um acelerado crescimento da população idosa em todo o mundo.

Para além disso, o cuidado entrou de vez nos holofotes durante a pandemia de Covid-19. Tornaram-se frequentes os imperativos “cuide de si”, “cuide das pessoas que você ama”, “cuide da sua casa” na mídia, sociedade civil, governos, empresas, no interior das famílias e nas relações de amizade.

Em termos acadêmicos, porém, a emergência das teorias do cuidado remonta aos anos 1980, nos Estados Unidos. Vale dizer que essas teorias partem de uma construção histórica dos movimentos de mulheres e estudos feministas relacionados à divisão sexual do trabalho, trabalho reprodutivo, e sobre a invisibilidade e desvalorização do trabalho doméstico, remunerado ou não.

Nesse contexto, é tido como precursor das teorias do cuidado o trabalho de Carol Gilligan. No livro “Uma Voz Diferente”, de 1982, ela relata, a partir de uma pesquisa sobre as experiências de homens e mulheres diante de conflitos morais, diferentes formas de resolução desses conflitos: uma, por meio da “ética da justiça”, fundada em princípios racionais, abstratos e impessoais; e outra que ela chama de “ética do cuidado”, fundada em experiências singulares, no concreto e nos sentimentos.

Outras autoras, especialmente Joan Tronto e Susan Moller Okin, partiram da correlação feita por Gilligan entre ética do cuidado e o comportamento das mulheres para ampliar os estudos do cuidado e relacioná-lo com outras disciplinas, como a Teoria Política.

Para Joan Tronto e Berenice Fisher o cuidado pode ser entendido como uma “atividade da própria espécie humana, que inclui tudo o que fazemos para manter, continuar e reparar nosso ‘mundo’ para que possamos viver nele da melhor forma possível”. A partir delas, o conceito e as abordagens do cuidado se diversificaram, mostrando cada vez mais a complexidade desse fenômeno.

Na América Latina o desenvolvimento dos estudos sobre trabalho doméstico e de cuidado ganhou força especialmente no campo da Sociologia. Importante falar da emergência do campo por aqui, porque muito das preocupações com a “crise do cuidado” e as “cadeias globais do cuidado” envolvem diretamente migrações do Sul para o Norte Global. Além disso, os arranjos do cuidado em países que já foram colônias, e que carregam desigualdades sociais internas muito marcantes, têm relevantes peculiaridades.

Pensando especificamente no Brasil, os estudos do cuidado têm como expoentes as Professoras Helena Hirata e Nadya Araújo Guimarães. Com base nelas, inclusive, é que podemos introduzir uma definição de cuidado.

Primeiro é importante dizer que é um desafio conceituar o cuidado, por ele ser polissêmico e possuir diversas dimensões, podendo ter um significado mais amplo ou mais específico de acordo com a vertente.

Uma pista para avançar é deixarmos um pouco de lado o substantivo “cuidado”, ou mesmo “trabalho de cuidado”, ou “atividades de cuidado”, porque esses não soam tão familiares. E partirmos para o verbo “cuidar” e expressões como “tomar conta”, que são de uso cotidiano e nos remetem a significados práticos. “Cuidar da casa”, “cuidar das crianças”, “cuidar de idosos” e até “cuidar do marido” são tarefas socialmente atribuídas às mulheres, seja de forma remunerada ou não.

Dessa pista, podemos apresentar um conceito amplo de “cuidado”, definido por Helena Hirata e Guita Debert. Para as autoras, cuidado é usado para descrever: “processos, relações e sentimentos entre pessoas que cuidam umas das outras”, evocando um campo de ações amplo e cobrindo várias dimensões da vida social.

O conceito engloba desde “práticas, atitudes e valores relacionados com o afeto, o amor e a compaixão envolvidos nas relações intersubjetivas”, até as ações do Estado e políticas públicas voltadas aos segmentos da população tidos como dependentes”.

Ou seja, estamos falando desde a relação de cuidado uma mãe com seu filho, uma avó com seu neto, a vizinha que ajuda a outra; mas também do trabalho de uma babá, de uma trabalhadora doméstica, uma cuidadora de idosos. E, também, de oferta de creches públicas; escolas infantis; serviços de limpeza doméstico; lavanderias comunitárias etc.

A partir desse conceito, e da multiplicidade e complexidade de temas que ele engloba, diversos são as formas de abordagem, as vertentes de estudo e as disciplinas que se interessam por ele.

Uma delas é a abordagem do cuidado como trabalho, que engloba debates sobre uso do tempo, os circuitos do cuidado, interseccionalidade e a bipolarização do emprego feminino. Isso leva a reflexões sobre o trabalho doméstico e de cuidado remunerado, que no Brasil envolve gênero, raça, classe e origem, sendo relevante destacar o tratamento desigual dado às trabalhadoras domésticas, que na maioria são mulheres não-brancas, a precarização e desvalorização do seu trabalho etc.

Também permite pensar sobre as emoções presentes nesse trabalho, que vão desde o amor e o afeto até a culpa, a raiva e o nojo. Outra abordagem possível é da economia feminista, que revela cifras ocultas e demostra como o sistema econômico depende do cuidado, desvalorizado e não remunerado para manter-se em funcionamento, ainda que o naturalize e não dê sua devida importância.

O cuidado também abre uma frente nas reflexões sobre cidadania, porque coloca no centro do debate a dependência e interdependência dos seres humanos e passa pela percepção de que somos todos vulneráveis, afinal todos precisamos ou precisaremos de cuidado em algum momento da vida.

Do ponto de vista da gestão de políticas públicas, é possível pensar na oferta de creches, no tratamento discrepante entre maternidade e paternidade e em debates sobre o cuidado no interior de arranjos familiares não heteronormativos. Por fim, destaco os debates jurídicos e de luta por direitos, que englobam a mobilização de décadas das trabalhadoras domésticas por igualdade, a regulamentação da profissão de cuidadoras, entre outros temas.

(espaço)

Quer saber mais? Leia:

ANGOTTI, Bruna (org.); VIEIRA, Regina (org.). Cuidar, verbo coletivo: diálogos sobre o cuidado na pandemia da Covid-19. Joaçaba: Editora Unoesc, 2021. 256 p. Disponível em: <https://www.unoesc.edu.br/images/uploads/editora/Cuidar,_verbo_coletivo.pdf>

GUIMARÃES, Nadya; HIRATA, Helena. O gênero do cuidado: desigualdades, significações e identidades. Ateliê Editorial, 2019. 296 p.

FARIA, Nalu (org.); MORENO, Renata (org.). Cuidado, trabalho e autonomia das mulheres. São Paulo: SOF, 2010. 80 p. (Coleção Cadernos Sempreviva. Série Economia e Feminismo, 2). Disponível em: <http://sof2.tempsite.ws/wp-content/uploads/2010/11/cuidado_trabalho_e_autonomia_das_mulheres.pdf>

FARIA, Nalu (org.); MORENO, Renata (org.). Análises feministas: outro olhar sobre a economia e a ecologia. São Paulo: SOF, 2012. 104p. (Coleção Cadernos Sempreviva. Série Economia e Feminismo, 3). Disponível em: <http://www.sof.org.br/wp-content/uploads/2017/07/An%C3%A1lises-feministas_outro-olhar-sobre-a-economia-e-a-ecologia.pdf>

coletiva.org | Dossiê Cuidado. Disponível em: <https://www.coletiva.org/dossie-cuidado>

VIEIRA, Regina Stela. Cuidado no Direito: invisibilidade e desvalorização do essencial trabalho doméstico e de cuidado. Coletiva. Dossiê Cuidado. Disponível em: <https://www.coletiva.org/artigo-cuidado-no-direito>

Fenatrad – Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas. Disponível em: <https://fenatrad.org.br/>

Cuidar, verbo coletivo. Bruna Angotti; Regina Vieira. Spotify, 2020. Podcast. Disponível em: <https://open.spotify.com/episode/5pc9Fil9BN3Cj5queA1Z0T>

MARCONDES, Mariana Mazzini. O cuidado na perspectiva da divisão sexual do trabalho: contribuições para os estudos sobre a feminização do mundo do trabalho. Trabalhadoras – Análise da Feminização das Profissões e Ocupações, p. 251-279. Disponível em: <https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/31211/1/LIVRO_TrabalhadorasAnaliseFeminizacao.pdf.>

MARCONDES, Mariana Mazzini. Transversalidade de gênero nas políticas de cuidado. Revista Feminismos, [S. l.], v. 8, n. 3, 2021. Disponível em: <periodicos.ufba.br/index.php/feminismos/article/view/42378>

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